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Paralisação em antiga mina de Eike faz cidade do AP viver crise financeira


terça-feira, 24/março/2015
Paralisação em antiga mina de Eike faz cidade do AP viver crise financeira

Com expectativa de gerar seis milhões de toneladas de ferro em 20 anos, a extração do minério em Pedra Branca do Amapari, a 183 quilômetros de Macapá, parou antes mesmo de completar uma década após a primeira exportação, realizada em 2007. Restou à pequena cidade no meio da selva amazônica cultivar o saudosismo do auge da mineração, atividade iniciada pelo empresário Eike Batista e atualmente administrada pela Zamin Amapá, multinacional indiana. A interrupção nas minas gigantescas abertas no solo aconteceu em 2014 por causa do desabamento do porto que escoa a produção e resultou em consequências negativas ao município, principalmente na economia.

Viajamos para a região e ouviu os relatos de quem investiu tudo no sonho do “eldorado amapaense”.

O “boom” econômico vivido por sete anos em Pedra Branca do Amapari levou vários imigrantes para região, provocando crescimento populacional de 4,2% ao ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),  que estima 13 mil habitantes no município. O número triplicou ao registrado em 2000, antes da extração de ferro nas minas. Eram apenas quatro mil habitantes naquele ano.

Com a paralisação da extração de ferro, moradores relatam a mudança na rotina da cidade por causa da saída de pessoas que trabalhavam na região e empresários mostram insatisfação pela queda nas vendas do comércio. A prefeitura de Pedra Branca do Amapari também foi afetada com perdas na arrecadação de impostos.

O motivo para mudança repentina na cidade ainda é resultado do desabamento do porto particular da mineradora Zamin Amapá, em Santana, a 17 quilômetros de Macapá. O terminal era a única saída do minério para exportação. O acidente, em março de 2013, deixou quatro mortos e dois desaparecidos. A empresa diz que investiu R$ 300 milhões na reconstrução do porto, mas não informou data para conclusão da obra, alegando “fatores externos para demora”.

Um ano depois do desabamento, a Zamin anunciou a interrupção das atividades na mina localizada no município amapaense por causa do “término da capacidade de estocagem de ferro, tanto em Pedra Branca quanto em Santana, e o atraso nas obras de reconstrução do terminal de embarque de minério”.

A medida causou a demissão em massa de dois mil funcionários, segundo a própria mineradora. Um deles foi Jhonathan Rocha, de 24 anos. Morando em Pedra Branca do Amapari desde 2012, o jovem natural de Itaituba, no Pará, buscou nas minas amapaenses a chance de ganhar dinheiro com o minério. Ele ainda trabalhou por dois anos como controlador de materiais no almoxarifado. Depois de duas promoções no emprego, o sonho de alcançar cargos mais altos foi interrompido com a paralisação da empresa.

“Nem se compara o salário de quando eu trabalhava na mineradora com o que ganho agora no comércio”, disse Jhonathan Rocha. Depois da demissão, ele passou a atuar como vendedor em uma pequena loja de eletrônicos em Pedra Branca.

Além da mudança de emprego, também teve o impacto financeiro, passando a receber R$ 400 mensais ante ao R$ 1,2 mil pago pela mineradora. O dinheiro é usado para sustentar as duas filhas, de 2 e 5 anos, e a esposa, que conheceu em Pedra Branca do Amapari. “A gente dá um jeito no orçamento”, brinca o vendedor na cidade que em 2012 registrou a maior renda per capita, com R$ 22 mil.

‘Janelas fechadas’
O ex-servidor da Zamin não foi o único a tentar a sorte no “eldorado amapaense”. Vários comerciantes de outras regiões se instalaram em Pedra Branca do Amapari para aproveitar as “janelas de oportunidades”, bordão econômico usado para destacar o momento propício de certa atividade. Poucos empreendimentos, no entanto, resistiram quando as “janelas” fecharam.

Não é difícil andar pela cidade e encontrar estabelecimentos trancados em horários comerciais. O declínio na economia afetou todos os ramos – desde o de alimentação até a hospedagem, passando pelos varejistas e o da construção civil.

O comerciante Edinaldo Alves, de 30 anos, largou os estudos há três anos para montar um comércio com o pai. O movimento dos dias atuais, segundo ele, não se compara ao vivido antes da paralisação da extração de ferro no município amapaense. O faturamento diário no estabelecimento passou de R$ 2 mil para R$ 200, gerando demissão de funcionários.

“Não dava nem tempo de sentar direito porque existia muita gente circulando no comércio, com entra e sai de pessoas que vinham buscar emprego, visitar parentes ou ficar a negócio por um ou dois dias. Agora está tudo muito calmo. Mas ainda tenho uma esperança no fim do túnel que faz eu acreditar no retorno da mineradora”, contou o comerciante.

O movimento fraco relatado pelos moradores também afetou comerciantes mais consolidados na região. Edvaldo Lima, de 53 anos, tem um dos restaurantes mais visitados na cidade amapaense. Apesar da maior parte da clientela ser de pessoas nativas da região, ele também cita queda na receita.

“Apesar de não ter trabalhado diretamente com fornecimento de alimentação para a empresa, fui prejudicado porque diminuiu o número de visitantes no município”, frisou.

Outro ramo econômico afetado de forma mais intensa em Pedra Branca do Amapari foi o de hotelaria. Com trabalhadores naturais de outras regiões do Amapá e do país, empresários locais investiram milhões para levantar empreendimentos que serviam de alugueis a funcionários da Zamin Amapá.

O caso mais emblemático é do empresário Ocir Lobato, de 53 anos. Ele disse ter desembolsado R$ 4 milhões na construção do maior hotel da cidade. O prédio foi erguido em onze meses com 92 quartos, todos com banheiro, acabamento em porcelanas, ar-condicionado, internet e TV a cabo. A área interna do hotel também contava com restaurante próprio. Tudo encontra-se sem uso.

“Eu tinha todos os quartos alugados, com valores que chegavam até R$ 1,5 mil por mês. Agora, com a saída da empresa, não consigo nem por R$ 300”, lamentou Lobato, que disse ter lucrado até R$ 100 mil mensais com os alugueis aos trabalhadores.

Hoteis mais modestos também foram afetados. O empresário Ruy Lobato, de 69 anos, vive o mesmo drama. Com um prédio de 32 quartos, o empreendimento não passa de quatro ocupados diariamente. “Quando a mineradora atuou aqui foi o melhor período do meu negócio”, lembra.

Impacto na administração
A extração de minério de ferro rendeu frutos a Pedra Branca do Amapari durante o período de atividade das empresas, elevando a economia do município para a quinta maior do estado entre os maiores valores do Produto Interno Bruto (PIB) das 16 cidades do Amapá. O último dado divulgado pelo IBGE refere-se a 2012 e calcula que o município teve R$ 269,9 milhões em riquezas no ano.

A atividade mineral tornou-se o “carro-chefe” da arrecadação municipal, representando a maior parcela do PIB de Pedra Branca do Amapari, com 34,88%.

De acordo com o prefeito Genival Gemaque (PR), a principal queda econômica aconteceu no Imposto Sobre Serviços (ISS) e no de Compensação Financeira Sobre Produtos Minerais (Cefem). Os tributos geravam receita acima de R$ 1 milhão mensais a cidade, que ainda tem 78,4% das ruas com esgoto a céu aberto e um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) calculado em 0.626, abaixo da média nacional de 0.727.

Pouco tempo depois da Zamin anunciar paralisação, a prefeitura de Pedra Branca do Amapari reduziu em 30% o salário dos cargos comissionados dos servidores municipais. O corte resultou na economia de R$ 137 mil por mês. O salário do prefeito, por exemplo, passou de R$ 12 mil para R$ 8 mil. “Tomamos essa medida para não demitir e assegurar o pagamento do salário”, disse Gemaque.

Império “X” na selva
O sonho de muitos em Pedra Branca do Amapari foi motivado por Eike Batista, empresário que à época ocupava a lista dos homens mais ricos do mundo. Ele ergueu a estrutura em apenas 15 meses no meio da selva amazônica, batizando a mina de Sistema Amapá, administrada pela MMX. Os investimentos da empresa renderam até o título de cidadão amapaense a Eike Batista.

Apesar dos investimentos, a MMX anunciou a venda do Sistema Amapá em Pedra Branca do Amapari um mês depois da primeira exportação, em dezembro de 2007. O complexo da mineração incluía uma mina, a Estrada de Ferro do Amapá (EFA) e um terminal portuário em Santana.

A Anglo American comprou o controle do Sistema Amapá por 5,5 bilhões de dólares, a maior aquisição realizada pela mineradora no país. Quatro anos depois, o empreendimento foi adquirido pela Zamin Amapá, por 136 milhões de dólares. A intenção da empresa indiana era triplicar a produção no Brasil, mas atualmente, a mineradora está com os maquinários parados e com o pátio comportando montanhas de ferro em Pedra Branca do Amapari e Santana. Além de acumular dívidas milionárias. A última trata de um empréstimo de 136 milhões de dólares com um banco italiano, dando como garantia a estrada de ferro.

Em nota, a Zamin Amapá negou a hipoteca da ferrovia e sobre possíveis retornos das atividades afirmou que “encontra-se em entendimentos com o Governo do Estado” e “conta com o apoio dos setores envolvidos na atividade de mineração, inclusive no que diz respeito ao transporte ferroviário”. Apesar do comunicado, a mineradora não informou prazos.

g1

 


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