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Influencia Cristã na Gastronomia Ocidental


quinta-feira, 17/janeiro/2013
Influencia Cristã na Gastronomia Ocidental

Desde a maçã, até a Santa Ceia, onde se degustou pão, cordeiro e vinho, seguindo pelas vigílias eclesiásticas, os alimentos, bem como sua preparação, tiveram um grande significado que se mantém até nossos dias.

A inter-relação entre a comida e sua simbologia gerou, nos últimos 21 séculos, incontáveis consequências, nem sempre leves, como o aparecimento do protestantismo, em parte por causa da negação de países do Norte de prescindir da carne nos dias de abstinência. O judaísmo anterior ao cristianismo contava com um sem-fim de restrições alimentares que foram refutadas no cristianismo. Uma voz divina anunciou a São Pedro esta mensagem: “Todos os animais que povoam a Terra – se correrem, voarem ou nadarem – estão à disposição do homem e lhe servirão de alimento”. Porém, imediatamente, os padres da igreja tomaram consciência de que o caminho que conduz à espiritualidade passa pelo controle das paixões; então, deram início ao catálogo de regras e restrições severas com penitência, abstinência de carne, jejuns, vigílias, quaresmas temporárias, advento… Definitivamente, um penoso rosário de limitações gastronômicas, impostas a quem já tinha bastante com quem se preocupar – por razões de pura sobrevivência -, a fim de moldar o espírito, segundo eles licencioso se se entregassem desmesuradamente aos prazeres da mesa. E como quem criou a regra, criou a exceção, foram criadas as bulas, documentos comprados da Igreja por polpuda quantia de dinheiro para se dispensar de tais preceitos e limitações alimentares.


Existia todo um mundo de tramoias ao redor das bulas – vendida nas ruas por buleiros -, que, na realidade, eram impostos mascarados que iam para os cofres da Igreja e da Fazenda Real.
O Papa Alexandre II promulgou a primeira bula em 1.064, conhecida como Bula da Cruzada. Em troca de dinheiro podia-se obter uma bula, ou diploma pontifício, que outorgava uma série de privilégios, indulgências e graças especiais; uma das mais valorizadas era a que permitia evitar as proibições de jejum e da abstinência. O que se arrecadava com as bulas subvencionava exércitos e nobres que participavam das Cruzadas.
Outra bula foi a da Santa Cruzada, outorgada aos Reis Católicos em 1.482. Foi um induto exclusivo com o qual se custeou a guerra de Granada contra os Árabes. Os recebiam em nome da Igreja. Essa bula foi extinta no Concílio Vaticano II, em meados do século XX, mas, como é lógico, já não era utilizada.


Foi em 325, no Concílio de Nicéia, convocado por Constantino o Grande, que se estabeleceu oficialmente o período quaresmal, em referência aos quarenta dias que Jesus Cristo passou no deserto orando e jejuando. Antes desse concílio não existia uma norma generalizada. Em um primeiro momento, o jejum quaresmal consistia em uma única refeição ao pôr-do-sol, após a eucaristia (como o ramadã atual dos mulçumanos). Essa refeição contava com apenas verduras, legumes, pão, gordura somente de origem vegetal e água. Posteriormente, a Igreja incluiu dias de abstinência de carne, foram estabelecidos os jejuns de vigília, que consistiam em jejuar no dia anterior às principais festas religiosas; os jejuns de advento, que obrigavam a jejuar às quartas-feiras, o que mais tarde seria às sextas; e também às quartas, sextas e sábados das quatro têmporas, que coincidem com as quatro semanas do ano mais próximas às mudanças de estações. Dessa forma, existe a têmpora de dezembro (Advento), a de março (Quaresma), a de verão (oitava de Pentecostes) e a de setembro (a festividade de São Lourenço). Esse complexo calendário aumentava segundo exceções e características do país, época, bulas ou indutos, idade dos fiéis, estado de saúde e considerações de índole teológica. Assim, estavam isentos cozinheiros e boleiros, porque deviam provar os alimentos, os cristãos que transitassem por terras de infiéis, os prisioneiros que estivessem remando em galeras, os pregadores que pregassem diariamente – se pregassem três ou quatro vezes, então tinham de jejuar, sim -, os que padecessem de “fraqueza no estômago” (certificada por um médico); definitivamente, um grande número de observações e exceções.
Alguns personagens abandonaram o mundo para buscar a perfeição espiritual por meio de jejuns. Reunindo-se, começaram a criar pequenos grupos monaicais, no início bastante extravagantes, até mesmo vistos com receio pela hierarquia romana, como os anacoretas, fossem estilistas, estacionários ou monges-pastores, dependendo de suas singularidades (se viviam nas árvores, se dormiam em pé etc), porem, todos eles tinham algo em comum – a privação de alimentos. Esse costume mudou com o tempo, e nos mosteiros, bem como nos conventos, a alimentação era regular e adequada, às vezes até excessiva; o próprio Afonso X, o Sábio, sentiu necessidade de intervir devido à indignação popular em relação à gula excessiva de alguns sacerdotes, bem como sua gordura. Em sua obra As setes partidas, pede às comunidades monásticas temperança e sensatez no consumo de bebidas e alimentos. Há o caso de Santo Tomás de Aquino, que, por ser corpulento, teve de aguentar alguns comentários maldosos; era acusado de comer muito, ao que o santo respondia: “Muito menos come uma moranga, e, apesar disso, engorda mais e em menos tempo que eu”.


Pouco a pouco, as normas de alimentação foram sendo introduzidas na vida dos cristãos, adaptadas aos alimentos de que dispunham, e, com isso, produziu-se uma gastronomia própria da comunidade cristã, afastada, às vezes, daquela dos Papas, pelo menos na prática. O leite de amêndoas, de origem árabe, difundiu-se rapidamente pela Europa por meio da Itália e da Espanha e na cozinha substituiu o de vaca, que não podia ser tomado em dias de abstinência; o óleo substituiu a manteiga; e o peixe, a carne.

Há um curioso caso de um prato que agora é reconhecido como de origem japonesa, o tempurá(vegetais cobertos de farinha e fritos), atribuído a uma preparação realizada in tempore quaresmae, chamada assim pelos jesuítas, que levaram a receita para o Oriente; daí o nome tempurá, mantido na “Terra do Sol Nascente”. À Espanha regressou por meio das irmãs Clarissas, como consta no livro A cozinha monacal: “Trata-se de uma receita trazida a este mosteiro de Santa Clara de Arneto por uma freira japonesa, membro de nossa comunidade”.
Alguns alimentos gozam de excepcional simbolismo dentro do cristianismo, como o vinho, o pão e o azeite de oliva, mas, curiosamente, este último foi, durante séculos, símbolo na cozinha dos não-cristãos, pois os cristãos preferiam cozinhar com toucinho e manteiga, enquanto árabes e judeus o faziam como óleo vegetal, visto que não podiam comer carne de porco e tampouco seus derivados. Essa diferença foi substancial nas refeições dessas comunidades, a tal ponto que se dizia, na idade média, que pelo cheiro do ensopado sabia-se a religião da família.
O pão, sacralizado por Jesus Cristo, que o transubstanciou em seu próprio corpo foi durante séculos um alimento sagrado, que quando caía no chão era beijado; não podia ser jogado fora. Fazia-se o sinal-da-cruz com aponta da faca no pão antes de pegá-lo e era abençoado a cada dia na mesa antes de ser consumido. “O pão nosso de cada dia nos daí hoje”, diz a oração mais significativa do catolicismo: o Pai-Nosso. A hóstia, utilizada na liturgia eucarística, e que deve ser feita, necessariamente e exclusivamente de farinha de trigo sem fermentar, assim como aquele outro pão que Jesus Cristo e seus apóstolos comeram durante a Santa Ceia, elaborado sem levedura, como prescrevia a lei judaica, uma norma rigorosa para a Igreja e certamente polêmica. Em outubro de 1.995, a Congregação para a doutrina da Fé, presidida por Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI, opôs-se à ordenação de futuros sacerdotes com doença celíaca; o motivo é que a intolerância ao glúten, um dos componentes do trigo, os impediria de ingerir a hóstia eucarística sem pôr em risco sua saúde.


Era o tal gosto pelo pão branco (o de trigo), que os homens mais pios da Igreja às vezes renunciavam a comê-lo como penitência. Esse foi o caso do monsenhor Gregório, bispo de Langres, que adquiriu o costume de comer pão de aveia, considerado o pior de todos.
O vinho e a videira, citados em até 450 ocasiões na Bíblia, adquiriram no cristianismo uma grande importância. Na Santa Ceia, apontando sua taça de vinho, Jesus disse: “Este é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança que será derramado por vós”; por esse ato, o vinho tornou-se um símbolo importante da liturgia cristã.
O vinho, e seu consumo moderado, foi motivo de polêmicas e reflexões ao longo dos séculos na Igreja. Neste sentido, a regra de São Bento, que serviu de referência a outras organizações, aconselhou o consumo de 0,27 litro por refeição, aproximadamente um copo de vinho, o que não é muito se levarmos em conta que a média de consumo na Idade Média oscilava entre um e quatro litros por dia / pessoa, mas misturado com água. No caso dos conventos, porém, a quantidade era muito menor: sabe-se que São Leandro, em regra escrita para a comunidade de sua irmã Florentina, aconselhava a abstinência entre as freiras saudáveis e, se estivessem um pouco doentes, poderiam tomar uma pequena quantidade como tônico.


A utilização do vinho, por seus efeitos medicinais, foi difundida pela Igreja. O padre Feijoo (iluminista do século XVIII) aconselhava-o principalmente na Quaresma, em seu livro Teatro crítico universal: “Quem não costuma beber vinho, ou muito pouco em tempo carnal, bebendo um pouquinho de vinho, ou um pouco mais que o costume em tempo de Quaresma, poderá suportar melhor a frieza e umidade dos alimentos quaresmais. Ainda, aquele que em todo tempo tem como bebida regular o vinho, conseguirá o mesmo efeito usado em tempo de Quaresma de vinho mais generoso”.
A duração das orações também servia como controle de tempo de cocções de assados; assim, um ovo era cozido no espaço de tempo em que se rezava um Pai-Nosso, enquanto um assado podia ser feito enquanto se rezava um rosário. Ao mesmo tempo em que se cozinhava, orava-se, corroborando o que dizia Santa Tereza de Jesus: “Deus está até nos ensopados”.

Makelle Oliveira Dalla Rosa

 

 


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